Artista


Vai, CLÁUDIO!

  

ENNIO MARQUES FERREIRA

Quando nasceu, um anjo torto – desses que vivem na sombra – disse: vai, Cláudio! Ser gauche na vida (...)
Ousando parodiar Drummond, pedimos, reverentes, autorização para usar aqui os versos do poeta, a fim de assinalar a chegada, em 1950, na interiorana cidade paulista de Matão, do artista Antônio Cláudio Marcelino dos Santos, no seu primeiro e mais marcante vernissage. Foi esse o começo da densa trajetória de um dos mais controversos personagens da também controvertida história da arte do nosso Estado. Aceitando e assumindo a condição de gauche, perseguiu, desde muito cedo, com suas próprias pernas, o sinuoso e pouco receptivo caminho à sua frente, em busca de um lugar que de direito acreditava ser, onde estaria guardando o reconhecimento artístico, unânime e convergente dos críticos e apreciadores de arte.
Oriundo de núcleo familiar predominantemente operário, retrato evidente da nossa mestiçagem, amálgama de raças, cores, crenças, hábitos e costumes formadores da população brasileira, ele não encontrou amenidades ao longo desta caminhada, mas, resoluto, prosseguiu, não sem alguns tropeços e muito empenho.(...)
Antes mesmo de completar vinte anos, o interesse pela pintura se manifesta com ainda maior intensidade. Os envolvimentos místicos vêm em seguida, levando o jovem a empreender viagens sensoriais, resultando de experiências esotéricas, acompanhadas de surpreendentes visões, por ele mesmo reprimidas em curto espaço de tempo, essas fantasias chegaram, no entanto, a influenciar o imaginário temático que iria se manifestar posteriormente.
Os últimos anos da década de sessenta, marcados pela eclosão dos movimentos de contestação popular e pela dura contrapartida policialesca, coincidem com a crescente necessidade de Kambe e de seu grupo de “adolescentes malditos” mergulharem fundo à procura de suas origens. (...) Ao repudiar contenções éticas e influências de qualquer tipo ou procedência, assumem eles suas próprias e idiossincrasias e superam

  

limitações para reagir e viver intensamente o histórico tempo de transição, mesmo que seja à volta de uma mesa de bar.
Nessa quadra de tempo assinalada pela expectativa, comoção e sobressaltos por que passa o grupo em seu até certo ponto limitado âmbito de atuação, irrompem nos desenhos de Kambe alterações formais e de conteúdo levadas vigorosamente ao papel. A obra desse criador, que já se manifestava, em clima de emergente surrealismo e sensualidade, torna-se impregnada de densa substância social, política e de defesa ambiental. Contendo ingredientes de incomum emoção e sensibilidade, o trabalho do artista jamais perdeu, porém, a íntima e tocante relação com as coisas simples (e simplórias), primitivas (e primárias) quando não surreais que tocam nossos sentidos e que são suas marcas e personalidade.(...)
A longa vivência de Kambe como ilustrador é a responsável pela gradual sedimentação de seu projeto artístico. (...) Ninguém duvida, porém, que, através da urdidura de baixa tonalidade cromática de sua obra, ele reconta, com a autoridade da testemunha que a tudo vivenciou, uma tosca fábula, cujo tema está profundamente arraigado à mais pura e autêntica realidade brasileira, fábula essa que já teria sido, um dia, contada por Guimarães Rosa ou Dalton Trevisan. Temos convicção de que esses registros de inegável individualidade técnica e artística continuarão vivos na recente leva de pinturas em acrílica sobre tela iniciadas pelo pintor.
(...) um artista moldado pela caminhada adversa e que nunca se vergou aos modismos e tendências de uma arte adocicada, mantendo-se autêntico, fiel e coerente com suas origens e sua própria consciência.
(...) nada se parece tanto com Antônio Cláudio Marcelino dos Santos que a obra de Kambe.

Texto publicado em “Ao Absurdo da Realidade”, de Cláudio Kambe (2003).

 

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