Artista


A FORÇA DA TERRA NA OBRA DE CLÁUDIO KAMBE

  

ADALICE MARIA DE ARAÚJO

Natural de Matão, pequena cidade do interior do Estado de São Paulo, Cláudio Kambe traz em suas veias a própria síntese da miscigenação brasileira, o que faz dele um porta voz de todas as raças da América Latina. Suas origens proletárias que marcam indelevelmente a sua obra, o aproximam mais da ótica do oprimido do que daquela do opressor. Apesar da falta de incentivo de sua família na infância, com a sua transferência na adolescência para o norte do Paraná, é em Cambé que descobre na arte a sua razão de vida; o que explica ter incorporado o nome da cidade como seu próprio cognome.
Nos anos loucos de início de setenta, em que imperava uma violenta repressão, o grupo de artistas de Cambé desafiava o SNI e DOPS e ia a praças públicas de Londrina expor suas obras, com slogans contra o sistema. Impingido pela necessidade de sobrevivência, a partir de 75, Cláudio Kambe supera a fase de contestação romântica, para começar a trabalhar profissionalmente como ilustrador. De início no jornal “Panorama” de Londrina (75/76); pouco depois em Curitiba, junto a Reynaldo Jardim, na época de ouro do anexo do “Diário do Paraná” (76); e, finalmente, na capital paulista, em grandes jornais como“ A Folha de São Paulo” (77/80) e na imprensa alternativa. Se para este artista autodidata enfrentar a rigidez dos editores corresponde a uma verdadeira escola que o compele a desenvolver um traço pessoal, em compensação, o radicalismo da censura – que então pairava sobre a imprensa e, especialmente, sobre seus desenhos – aguça, ainda mais, o seu sentido crítico. A repressão política agrava-se de tal forma que, em 78, durante seis meses, é obrigado a se refugiar com a família em Garaqueçaba, no litoral paranaense, que àquela época permanecia totalmente à margem da civilização. Tendo regressado a São Paulo, continua seu trabalho como “free lancer” na imprensa local. Este ciclo de sua vida complementa-se com uma viagem ao nordeste, em 79, que acentua, ainda mais, a sua percepção da realidade brasileira.
Nos anos oitenta fixa-se definitivamente no Paraná; em 82/83 trabalha, ainda como programador visual, na prefeitura municipal de Cambé. Porém, logo em seguida, abre mão de sua atividade como ilustrador, para se dedicar totalmente à pesquisa de materiais e técnicas na área de artes plásticas. O fato de ter se radicado em Curitiba – a partir de 85 – na medida em que acentua sua consciência de artista maldito, marginalizado pelas galerias e pela choldra de críticos a seu serviço, que preferem a linguagem comercial que prostitui o consumidor; o fenômeno amplia a necessidade do artista não só de se aprofundar para atingir a essência, como de construir uma iconografia pessoal.
Colocando-se contra os movimentos de uma vanguarda radical que pregam o niilismo e a morte da arte, Cláudio Kambe acredita no seu poder messiânico, na sua capacidade redentora de atuar como agente de transformação social e de levar o homem à reflexão. Porém, a arte que pratica não se amolda a um gênero histórico, ou a um objetivismo visual meramente descritivo. Muito pelo contrário. Embora inspire-se em cenas e tipos que vê, em sensações experimentadas, ele implode as simples referências casuais, para ir ao âmago da questão. No ponto de vista estético sua obra está intimamente relacionada com a sociologia (Kunstwissenschfat) e com a psicologia (Einfühlung).
Como João Câmara Filho em Pernambuco, em inícios dos anos setenta, ou Humberto Espindola no Mato Grosso, não é regionalismo piegas que o atrai, mas o psicodrama social que ele vivencia e do qual traça um testemunho comovido; que traz a marca da força telúrica do norte do Paraná. Através da aguda ironia de um observador perspicaz – que age como um verdadeiro psicólogo da alma humana – supera os limites da intuição para avançar em busca da expressão. Contudo, o substrato da fonte popular jamais desaparecerá da sua obra; assim como as imagens da realidade passam a ser, cada vez mais, o fio condutor para o imaginário, turbulento, surreal.
Segundo Samuel Fuller, “numa guerra o único heroísmo é sobreviver”. Se para um cineasta do primeiro mundo estas palavras referem-se a experiências com a 2ª Grande Guerra Mundial ou com o Vietnã, no terceiro mundo aplica-se ao dia a dia de um imenso contingente humano. Na sua primeira fase, Cláudio Kambe é, justamente, atraído por temas que revelam esta realidade catastrófica, gerada por um sistema cego que esmaga minorias como os índios; marginaliza a infância abandonada; ou escraviza os boias frias. Tudo ele registra através do seu desenho. Não como um analista frio, preso a estereótipos acadêmicos, mas como quem – pela vivência e sensibilidade – é capaz de sentir o drama visceralmente. Em uma segunda fase, sua obra avança até o reverso da medalha. Isto é, analisa o universo da minoria que detém o poder, verdadeiro show de bestialidade humana, que mesmo visualmente representado devora o espectador em seu banquete antropofágico; ou represente, ainda, o clima existencial do próprio artista no kafkeano e cinza espaço curitibano.
Os trabalhos mais recentes de Cláudio Kambe – que correspondem à segunda fase de sua obra – podem ser subdivididos em quatro séries principais, que se articulam entre si, através de características afins; interrelacionam-se com a primeira fase – mas que, todavia, se mantêm independentes. Por sua vez, cada série obedece a uma ideia básica, ou núcleo narrativo comum.





  

Na série “Cerimonial da Canalhocracia”, cria uma imaginária visual perversa que vai do riso estridente à respiração suspensa. Agudo observador do seu tempo, assiste às cerimônias oficiais, de políticos, burocratas. Como um Fellini, traça um retrato apocalíptico impiedoso das elites dominantes; estigmatizando a burguesia em sua moral hipócrita. Através destas personagens endomingadas, em seus rituais bombásticos, denuncia a hecatombe que se abate sobre a sociedade brasileira.
Como pano de fundo, contrasta grandes espaços monocromáticos sobre os quais se articulam, como descargas elétricas, estes fantoches do poder; imagens frontais, perfiladas como no cortejo de Justiniano e Teodora (Igreja de San Vitale em Revenna). Repetindo o cerimonial da corte bizantina, uma rígida hierarquia faz-se presente. Em afetado gesto/farsa, todas as personagens repetem a mesma pose ritual de entrecruzar as mãos, em um típico signo do enclaustramento do poder. Através destes retratos impiedosamente satíricos – verdadeiros endriagos – Cláudio Kambe deixa visível o seu eloqüente protesto. O plano verde ou lilás contrasta com a grande área vermelho/terra que atua como um campo em chamas que amplia o sentido metafórico. Metáfora esta que atinge seu ponto máximo no animal propiciatório que surge, em primeiro plano, em uma das composições desta série. Este, apesar de transfigurado pela cor cinza, conserva sua fisicalidade bovina. A morte sacrifical, presente no macabro banquete, transforma o animal em fetiche e vítima; objeto e símbolo do drama social da criatura humana espoliada e da natureza implodida através dos múltilos crimes contra a ecologia.
Seus comovidos retratos rabelaisianos prosseguem na série inspirada em Macondo – estranho lugar habitado por autênticas e mágicas criaturas – criado por Gabriel Garcia Marques em seu romance “Cem Anos de Solidão”. Partindo do princípio que cada cidade tem a sua faceta de Macondo, propõe à SEEC o projeto de criar um museu imaginário, retratando pelo menos 40 tipos originais dos principais municípios paranaenses. Até o momento já concluiu vinte desenhos dessa série, em que registra os “loucos sagrados” que seguindo hipotéticos impulsos ditados pelo inconsciente – na confusão entre o sonho e realidade – vivem experiências totais, sem qualquer censura do consciente. Rompendo a rotina da cidade nos seus hexacantos, são capazes de surfar em estrelas imaginárias, usando skates movidos com geléia de pitanga. Em Curitiba, ele registra o travesti Gilda, falecido Há poucos anos, personagem performática que transformava as ruas da cidade na delirante passarela dos seus eternos carnavais. Ou a mulher dos plásticos, que dorme sob uma árvore nas redondezas do Centro Cívico – seu castelo imaginário – vestindo-se com espalhafatosas roupas que tece com sucatas de plásticos, com as quais desfila com a dignidade de uma rainha.
Na exposição denominada “Um Fabricante de Imagens Trágicas e Tristes. Um Arteiro Dramático sem Valor?” que, em novembro de 89, realizara no Museu Guido Viaro, Cláudio Kambe apresenta a série “Em minha fase cinza sou carente de sol”. O cinza da autofágica cidade de Curitiba oferece um contraponto para a sensibilidade do artista, levando-o a transformar desenhos em espelhos mágicos de um prestidigitador que avança no espaço ilusionista surreal, desnudando, ao mesmo tempo, a verdade mais íntima do ser.
O pintor alemão Jörg Immerdof, em uma entrevista concedida à Fabrice Hergott, publicada no “Art Press”, (outono de 82) declarou que não era o mágico da nação e que os centros de interesse de um artista eram muito maiores, pairando sobre o céu e o inferno. Sendo que, através de sua esquizofrenia, ele se aproxima tanto do bem como do mal, com a mesma intensidade. É justamente esta dualidade – análise e o combate permanente entre estas duas forças – que se faz necessário representar.
Diante de tal dualidade, artistas como Cláudio Kambe são capazes de aprofundarem a tal ponto o nível da sua subjetividade, que criam mitologias individuais. Como um Goya brasileiro, em sua série cinza, Cláudio Kambe põe a serviço do imaginário turbulento as injustiças sociais do proletariado brasileiro, lançando um grito cáustico contra a opressão existências e social. Com intensidade e veemência ele liberta seus daimons íntimos para nos falar dos íncubos e súcubos de um boesch de terceiro mundo. Soltando sua fantasia endiabrada, nesta série trágica, suas personagens são sadicamente representadas como marionetes do sistema. Um bafo do inferno paira na estupidez das caras de palhaço, ou na barata que pousa no seio da mulher, ou nas hediondas representações da ameaça à ecologia e à sobrevivência do ser humano.
Menos dramática, mas sem por isso menos contundente, é a série “Expressionismo do Patriotismo Depressivo Nacional”.(...) Com a ironia sardônica que lhe é peculiar, é possível reconhecer na dama com o cachorrinho que faz pipi na bandeira, ou em cenas como acompanhamentos, o cotidiano dos sem terra e dos favelados, eternos deserdados do sistema. Através do seu trágico expressionismo surrealista, Cláudio Kambe nos dá uma lição de consciência nacional.
Ao analisar o trabalho de Cláudio Kambe, como um todo, conclui-se que se trata de um artista inconfundível, cuja obra se identifica com a força telúrica do norte do Paraná, mas que é capaz de traçar – em linguagem de alcance universal – um retrato veemente e trágico não só do Brasil, como de toda a América Latina.


Texto publicado na obra “Cláudio Kambe – Desenhos”, de 1990

 

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